Se o seu relógio parar, pense duas vezes antes de levá-lo à relojoaria.

Finalmente!
“Aberta”. A plaquinha envelhecida me fez sentir um alívio. O relógio Orient, herança de meu pai, tinha salvação. Dias procurando a relojoaria e nada, mesmo perguntando para alguns desconhecidos ali por perto. Foi necessária a dica do vendedor de quinquilharias — nas vezes anteriores, não o tinha notado sentado na esquina. A oficina estava lá, no final do beco.
Abri a porta. O sininho tocou. Entrei. A loja inteira ressoou. Cucos, gongos, despertadores, bipes, tique-taques, sons de trens, de elefantes, de gatos, até de um saxofone — nunca imaginei —, todos os mecanismos de medição do tempo cantaram meio-dia ao mesmo tempo… Pareciam comemorar a minha chegada.
Ao fundo, um senhor grisalho debruçava-se atrás de uma bancada, concentrado demais para me dizer boa-tarde ou expressar um sorriso de bem-vindo. Nem levantou a cabeça para me atender.
— Pois não? — ele me disse girando uma minúscula chave de fenda sobre a traseira de um relógio
— Bom dia. Meu relógio parou. O senhor poderia dar uma olhadinha e passar um orçamento para o conserto? Ele tem valor sentimental. Herança do meu pai.
O relojoeiro levantou o rosto. Assustei-me: a lente do monóculo destacou a pupila grande, negra e sem brilho. No outro olho, uma venda de papelão o cobria, não sei se por ser caolho ou por hábito de trabalho, ela estava atada à testa por um elástico de costureira e tinha a imagem de um “cthulhu”, igual ao polvo de Lovecraft. A barba por fazer, as rugas profundas no rosto magro, os dentes cerrados e amarelados lembraram-me as feições de uma múmia.
— Me dá aqui! — o relojoeiro praticamente tomou o relógio da minha mão, como se estivesse insatisfeito e não precisasse do serviço.
Pegou a chave hexagonal e o abriu em um passe de mágica. Examinou como antes, debruçado, e, sem olhar para mim, mexeu em algo e deu o veredito com a voz meio rouca:
— É corda. Não vai custar nada. Deixe-o comigo e volte mais cedo.
— Obrigado. Mais tarde, o senhor quis dizer.
— Volte quando quiser. Só preciso de tempo. Quando voltar, ele estará te esperando.
Agradeci e me retirei. Não posso mentir: senti medo.
Abri a porta, o sininho badalou novamente, sozinho, com o som expandindo-se como se refletisse nas paredes de um imenso túnel. Saí.
A calçada estava diferente, o asfalto da rua também. Era tudo paralelepípedo, sem degrau de separação entre as vias de pedestres e de carros. Um impulso me fez voltar. Virei-me. A fachada da oficina não mudara, o nome era o mesmo: RELOJOARIA TEMPUS, a plaquinha, idem: “Aberta”. Eu não tinha percebido o quanto a loja era velha. Girei a maçaneta e entrei.
O relojoeiro estava me esperando em pé. A cara de múmia sorriu, agora com dentes brancos, numerosos, perfeitos… As mãos abertas e estendidas à frente do peito pediam-me um abraço. No olho do monóculo, a pupila negra cintilava; no tapa-olho, o cthulhu se mexia. A boca enorme abriu-se; nenhum som saiu dela, mas de outro lugar, de vários lugares, dos buracos das paredes, de todos os relógios, e ecoou como se eu estivesse em uma tumba.
— Bem-vindo, Senhor! Muito obrigado pelo seu tempo.
Virei desesperado, corri para a porta… A maçaneta sumira.
— Não se apresse. O seu tempo parou!
Por José Arnon, 12/08/26.
Deixe uma resposta