O que Fazer?
Há tantos motivos para se preocupar em um só dia, e tantos outros para se alegrar nesse mesmo dia. A depender do seu estado de espírito, ao colocar os pés no chão quando sai da cama, o dia pode apresentar feições diferentes. Isso depende mais do destinos do que dos seus pés, é lógico.
Marcos, no trabalho, era um prestidigitador: resolvia tudo em um passe de mágica. Inteligente, experiente, habilidoso, manejava os problemas do seu setor com uma facilidade enorme, em questão de segundos. Naquela segunda-feira, entretanto, seus pés pareciam ter pisado em algo estranho, antes de vestir as pantufas.
Pouco antes do almoço, ele recebeu um SMS com um SOS: seu melhor agente saíra para uma captura e fora capturado pela esposa, ao deixar o Messenger aberto no computador. Um descuido terrível! Coisa de amador.
Os treinamentos da polícia nunca simularam uma situação como aquela, eram cartesianos demais, com soluções técnicas demais. Marcos resolvia grandes crises: prisões de magnatas, de políticos, investigações de quadrilhas perigosas… Pane conjugal. Isso nunca!
O agente emboscado pela companheira era o seu melhor infiltrado. A rede de informantes, montada a fórceps durante anos, seria exposta, não de imediato, mas homeopaticamente. A turma da rua corria sério risco de vida. A mulher do agente prometera ferrá-lo com prazer. Nas palavras dela, quando ligou gritando para Marcos:
— Vou foder esse filho da puta, Marcos! E não vai ser na cama!
Ele desligou o telefone pálido, assustado diante daquele trem descarrilhado.
— Caralho! O Fred tinha que pegar logo a Rose? Tanta gente… Ele escolhe logo a parceira de trabalho.
Marcos era agente sênior, tinha deixado a rua há bastante tempo, quando não havia Messenger para ser remexido. Na época dele era impossível ser tão imprudente.
Ele precisava conversar com alguém. Pensou em seus subordinados ali na sala, mas algum deles daria com a língua nos dentes e denunciaria o trabalho de campo. Os colegas do mesmo nível que o dele, concorrentes à próxima promoção, temperariam o affair dos arapongas apaixonados com detalhes sórdidos, um processo administrativo seria aberto e ele seria prejudicado no melhor momento de sua carreira. Falar diretamente com o chefe pareceu-lhe a melhor saída.
O mágico não tinha um coelho dentro da cartola, contudo, o mestre Santelmo sempre tinha um, e bem branquinho.
Pensou, escolheu as palavras, ligou para o gabinete do Secretário, pediu uma agenda para o briefing da “Operação Contenção” — inventou na hora o nome, focos de incêndio apareciam a todo momento em seu departamento —, ajustou a gravata, pegou a pasta (uma pasta sugere algo secreto nas mãos, aprende-se com vinte anos de carreira policial), disse à sua secretária que iria tratar de um assunto urgente com o chefão e complementou, meio disfarçando a tensão:
— Flávia, a Regina vai me ligar. Diga a ela que o almoço no Ruffino’s está em pé. Meio dia e meia. Comemoraremos nossas Bodas de Cristal — o marido imaculado, embora tenso, sentia-se exultante com o aniversário de um casamento longo e feliz.
Naquele dia, Marcos não imaginava, mas, ao acordar, pisara sobre um monte de espinhos.
Saiu.
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